Como é estranho como as coisas acontecem, uma noite de insônia e eu voltei a um projeto pessoal de digitalizar todas as minhas fotos, que são poucas, e eu olho para o rosto dos meus amigos do tempo de escola, de faculdade, os irmãos do escoteiro, a galera do tempo de handebol, o povo do RPG, aquela multidão de rostos, que formaram o seu passado, e que muitas vezes são referências para as escolhas dos seu futuro.

E você começa a pensar, quando fulano parou de se importar com a própria família, largou todo mundo por causa da esposa, e ciclana, tanto potencial e virou dona de casa e se anulou a sombra do marido. Como esse cara que era um revoltado, jogava RPG e enfrentava os crentes que falavam que éramos servos de satã, hoje é católico carismático e é pior que os evangélicos que enfrentava.

No fundo eu fico feliz, feliz de todos os dias olhar no espelho ver que os meus princípios ainda estão lá, eu ainda sou contra qualquer forma de segregação, continuo valorizando o conhecimento e as provas. O ciência sobre a fé, a verdade sobre a comodidade, a indignação sobre a indiferença. E vejo diversos amigos meus que são do mesmo jeito. Como é estranho ver pessoas que admirávamos se tornarem aquilo que elas detestavam, com o mesmo argumento de que amadureceram. Parece que na sociedade atual amadurecer se tornou sinônimo de se render, de não ter princípios de ser vazio.

Essa é a marca de uma sociedade que reclama da corrupção de nossos políticos, mas aonde o jovem, o adulto ocupam a fila de idosos no supermercado, aonde pessoas criam boletos de faculdades no Photoshop para ter direito a meia-entrada de estudante, mesmo tendo parado de estuda há décadas, aonde se aceita presente de fornecedores e parceiros comerciais da empresa aonde somos empregados. E se reclama dos políticos que desrespeitam as leis e as convenções sociais.

É meio estranho ver pessoas que não realizam o seu potencial simplesmente porque cedem a pressão de suas famílias, de seus amigos. Eu penso que o único responsável pelo sucesso e a falha em tudo que eu realizo sou eu, e somente eu, assim não devo escrever a minha história por linhas que outros traçaram, não devo atender a expectativa de ninguém.

Mas porque refletir sobre tudo isso? Porque o mundo nos empurra para sermos medíocres, ridículos, simplesmente consumidores, e ao aceitarmos isso nos tornamos nada. Animais, irracionais, o que nos marca como humanos é a consciência de nossa condição, e ter consciência real de nossa condição é o primeiro passo para que possamos melhorá-la constantemente.

Seja estudando, trabalhando etc. Mas para isso é preciso de uma fundação sólida e essa fundação vem dos nossos princípios, nossos valores, o que faz que nós sejamos quem somos, ora, se não termos isso, se cedemos a adotar os princípios e valores alheios, não somos nada, somos uma cópia, uma peça produzida em massa.

E para ter valores devemos desafiar o que é certo, experimentar o que é errado, julgar por nós mesmos e enfrentar quem quer nos impor o contrário, como Einstein dizia quem nunca errou nunca tentou algo novo, indo além quem nunca errou nunca tentou, e quem nunca foi acusado de estar errado nunca foi gente.

Não sei se as idéias soam coerente, mas esse tipo de pensamento tem se tornado cada vez mais constante na minha cabeça, estranho, diziam-me que quanto eu ficasse velho eu ia parar de enxergar o problema no mundo e ia entender que o problema estava em mim, mas eu acho que os problemas que eu tenho em muito vem da sociedade, mas é um ciclo e uma hora devemos quebrá-lo.

Não sei mesmo, mas sem sono eu reflito demais.

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